“Sobre amor, afetividade e relacionamentos na contemporaneidade”



A atualidade é marcada por mudanças sociais significativas e que provocam alteração nos comportamentos das pessoas que nela estão inseridas.


Buscar a compreensão dessas transformações e perceber quais implicações essas provocam em nossas vidas se faz necessário. Observar de forma crítica e provocar outras formas de olhar e de se relacionar pode ser fundamental para a sobrevivência segura e saudável do Homem contemporâneo.


Desde as últimas décadas do século passado e neste início do século atual vem acontecendo mudanças sociais de grande relevância nos diversos contextos: A globalização, as dimensões socioeconômicas, culturais e tecnológicas, são algumas dessas mudanças. Assim, sob um sistema capitalista baseado no consumismo e no reforço ao individualismo se instaura a chamada contemporaneidade.


Tendo como base a abordagem existencial, entendemos o homem como ser-no-mundo, ou seja, a relação é que constitui tanto o homem quanto o mundo. O homem faz parte do sistema das relações constitutivas da mundaneidade, eles se inter-relacionam, desta forma não há o homem sem o mundo, e nem mundo sem o homem. Influenciando e sendo influenciado, o homem vai construindo seu modo de ser. Portanto, pensar nas relações humanas é também pensar no mundo no qual elas estão inseridas. É pensar no individual, mas é também no coletivo.


A sociedade do consumo, do descartável, do self-service, rouba a cena no mundo moderno. Essa forma de viver abundante, com tantas opções nos levam a alguns problemas. Se pensarmos no consumo de bens materiais, por exemplo, temos problema com o excesso de lixo, e tá ai já há muito tempo a pauta ambiental e ecológica. Já discutem a problemática e militam por uma mudança de postura para a sobrevivência do planeta em que vivemos. Fazendo um paralelo com nosso campo, temos também os excessos, os desperdícios e a necessidade de reflexões e mudanças em prol da sobrevivência também eu diria. Bauman (2004), nos fala da fragilidade dos laços humanos. Traz para pensarmos a dificuldade que se observa hoje das pessoas se relacionarem, se envolverem afetivamente. Dificuldade de fazer vínculos , de ser afetado.

Romero (2011), nos fala que a afetividade é uma das dimensões da existência humana que abrange todas as formas que possam afetar o ser humano em sua relação com o mundo. Ela pode ser entendida como o conjunto de todos os afetos, negativos ou positivos a que estão sujeitos o homem.


O dicionário online traz que:


Afetividade é um termo que deriva da palavra afetivo e afeto. Designa a qualidade que abrange todos os fenômenos afetivos. No âmbito da psicologia, afetividade é a capacidade individual de experimentar o conjunto de fenômenos afetivos (tendências, emoções, paixões, sentimentos).


Ainda:

A afetividade potencia o ser humano a revelar os seus sentimentos em relação a outros seres e objetos. Graças à afetividade, as pessoas conseguem criar laços de amizade entre elas e até mesmo com animais irracionais, isto porque os animais também são capazes de demonstrar afetividade uns com os outros e com os seres humanos.


As relações e laços criados pela afetividade não são baseados somente em sentimentos, mas também em atitudes. Isso significa que em um relacionamento, existem várias atitudes que precisam ser cultivadas, para que o relacionamento prospere.


A intensidade dos laços afetivos que envolvem o ser humano pode ter relação com a sua saúde emocional, bem como a forma engajada ou não que este se relaciona com o mundo. É através da afetividade que a vida dá o tom. Os sentimentos, sejam eles de dor, alegrias, tristeza, prazer diante do vivido serão o que marcam a subjetividade. É o que diferencia. O que o torna único. As escolhas que se faz são sempre a partir do afeto. O afeto acontece na relação, e conforme conceitos existenciais, entendemos que para uma existência significativa é importante uma coexistência. É no compartilhar com o outro que eu me afeto. Nessa troca que eu me confirmo enquanto Ser, que eu amo e me sinto amado. Daí a importância da afetividade nas nossas vidas.


“A felicidade só é real quando compartilhada”

Na Natureza Selvagem


E o que percebemos é que com todos esses avanços e mudanças do mundo moderno há um favorecimento do isolamento do ser humano. É o paradoxo do mundo virtual, você está próximo de quem está longe e está longe de quem está próximo.


“A solidão por traz da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.”

Zygmunt Bauman

A facilidade da comunicação é também um escape aos enfrentamentos que uma vida compartilhada, coletiva nos exige.


Outro ponto característico da contemporaneidade, além da tecnologia e mundo virtual, é o consumo. A todo o tempo somos captados pelo marketing, filho do capitalismo, que nos leva a desejar, querer cada vez mais coisas. E trocamos nossos bens com o discurso de que eu preciso porque isso ou aquilo. (Ex: carro tá ficando velho, não pode passar de cinco anos e preciso trocar). Dessa forma, nos tornamos sempre escravos do sistema capitalista. Trabalhamos pra comprar e vivemos pra trabalhar. Em se tratando das relações, esse ritmo consumista influência no modo com que eu me relaciono com o outro. Há uma sede de experimentar o novo ao mesmo tempo uma impaciência na convivência. Observa-se a rotatividade de relacionamentos que a pessoa experimenta, tal qual no mercado de consumo de bens. As mudanças que atravessamos no mundo atual provocou um afrouxamento dos laços. O que Bauman nomeia de fragilidade dos laços humanos. Eu não “preciso” me esforçar tanto pra estar junto com o outro, numa relação. Se algo me desagrada, se não caminha no meu ritmo, se dá trabalho, eu faço a opção por recomeçar. Nada me segura. O fato de ter muitas oportunidades para experimentar, não só no sentido de ter muitas pessoas pra se namorar, mas experimentar outras coisas (viagens, trabalhos, estudos...). Uma variedade de possibilidades que dificulta também uma escolha consistente.


Essa leitura e reflexão nos faz compreender um pouco o fenômeno da intolerância, tão pautado nos dias de hoje. Muito se reforça a individualidade, a pessoa auto suficiente. Muito se fala de sucesso, somos instigados à competitividade, a busca por dinheiro, status social. Tudo isso só nos afasta ou dificulta a vivência afetiva.


A compaixão, a solidariedade, generosidade são pouco favorecidas nesse contexto, logo, a instabilidade nos vínculos afetivos, que tem esses aspectos como ponto de partida para a construção sólida e duradoura.

AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama, que se torna a mais larga e mais relvosa, roçando, em cada poro, o céu do corpo. É isto, amor: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado, nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre, salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Referências Bibliográficas:

ROMERO, E.. As Formas da Sensibilidade – Emoções e Sentimentos na Vida Humana. São José dos Campos: Della Bídia Editora – 5ª Edição – 2011

BAUMAN, Z. Amor líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

https://www.significados.com.br/afetividade/

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